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Filhotes adotados nos eventos do Marcelinho Protetor são castrados mesmo que precocemente

Por Luciano Rodrigo Lopes, biomédico, mestre pela Faculdade de Medicina da USP e doutor pela Universidade Federal de São Paulo

O artigo 2º da lei nº 16.794, de 12 de julho de 2018, de São Paulo, determina que “os animais deverão ser entregues para adoção após estarem devidamente castrados, vacinados e vermifugados” (1). Muitos anos antes da lei entrar em vigor, todos os animais disponíveis para adoção, em eventos organizados pelo Marcelinho Protetor, já passavam pelo processo de castração (assim como a vacinação e a vermifugação) mesmo sendo filhotes. É importante entender por que nossos filhotes passam pela castração pediátrica.

A castração, ou gonadectomia, é um procedimento bastante frequente que, por meio da esterilização, contribui na redução de animais abandonados e no controle de suas superpopulações. Com o grande número de animais abandonados, os abrigos e centros de adoções apresentam-se lotados e o número de eventos de adoção tem aumentado cada vez mais. Em tais eventos, observa-se que filhotes de cães e gatos são mais procurados do que adultos. Por isso, tornou-se uma prática comum realizar a castração pediátrica (entre 7 a 16 semanas). O procedimento é seguro, a recuperação da castração em filhotes é mais rápida, não prejudica o crescimento dos animais2, aumenta a expectativa de vida (2,3) e evita doenças potencialmente fatais4. Além disso, já foi descrito que os efeitos adversos da castração não são maiores em animais castrados em idades precoces (7 semanas) do que naqueles castrados na idade convencional (7 meses) (2).

Diferentemente do que ocorre nos eventos organizados pelo Marcelinho Protetor e seus voluntários, existem eventos de adoção que formalizam um acordo com os adotantes para que os animais sejam castrados posteriormente. Porém, nosso temor é que esse acordo não seja cumprido, visto que um estudo realizado nos EUA mostrou que em apenas 60% dos casos os adotantes levaram seus animais para a castração (3,5).

Além do controle populacional, são varias as indicações da castração. O procedimento é indicado, por exemplo, para animais que possuem problemas comportamentais de caráter sexual, como dominância ou possessividade, resultando em ansiedade e até mesmo em agressividade (3). No entanto, existem casos em que a castração tardia não resulta na melhora comportamental, e parte destes casos é motivo de devolução dos animais para abrigos (6). Por sorte, muitos tutores de cães resistem em devolver seus pets para a vida errante ou abrigo e buscam auxílio profissional para adestramento e correção comportamental dos animais com sucesso. No caso dos felinos, o baixo número de profissionais capacitados para lidar com problemas comportamentais frente a uma alta demanda é um fator que desfavorece a adaptação dos animais junto aos tutores. Em alguns casos, o gato com comportamento inapropriado, acaba sendo devolvido.

Complica-se ainda mais a situação de animais com problemas de comportamento, especialmente no Brasil, quando os adotantes não possuem recursos para contratar ajuda profissional. Em muitos casos, os animais permanecem perpetuamente em abrigos ou são eutanasiados.

Em relação à saúde, um dos principais benefícios da castração deve-se à redução no risco de câncer de mama. Tumores de mama em cães podem aparecer antes mesmo dos dois anos de idade! (7) O câncer de mama é o principal tipo de câncer responsável por mortes em cadelas (4,7), mas seu risco diminui drasticamente quando cadelas são castradas antes do primeiro cio. Em cães machos, o câncer de próstata e testículo, juntos, podem causar a morte em mais de 1% de cães, aponta estudo (3).

Em casos de piometra, infecção uterina com grande acúmulo de pus8, a castração é curativa (3). Em alguns casos, tutores menos atentos podem não dar importância ao quadro inespecífico, mas arriscado. Preocupa-nos ainda mais, o fato de que a piometra pode ocorrer, apesar de pouco frequente, em jovens de menos de um ano (7). Assim, a castração antes da adoção oferece segurança à vida dos animais.

Os principais questionamentos e críticas à castração pediátrica referem-se ao bloqueio no desenvolvimento e disfunções do trato urinário. É recorrente esse tipo de observação e preocupação entre os veterinários e adotantes. Mas o tema é controverso. Um estudo cujo objetivo era medir o diâmetro da uretra apontou que a castração feita em gatos machos com sete semanas de idade não alterou o diâmetro uretral, mas em fêmeas castradas o diâmetro da uretra é menor do que em fêmeas intactas9. Uma análise posterior mostrou que gatos castrados (machos ou fêmeas) apresentam mais problemas do trato urinário do que gatos não castrados (10). Em contrapartida, um artigo de revisão publicado no periódico The Journal of Reproduction & Infertility, mostra que animais castrados precocemente não apresentam mais riscos do que os animais castrados tardiamente (2). 

Apesar de haver estudos que relacionam a castração pediátrica com a incontinência urinária em cães (4), o tema também é controverso. Um estudo de caso publicado no periódico científico The Veterinary Journal 11 relatou casos de incontinência urinária em cães castrados precocemente e cães não castrados. O resultado desse estudo apontou que não houve diferença significativa do número de casos de incontinência em animais que foram castrados precocemente e animais não castrados. Um artigo de revisão, baseado em 30 referências, publicado no Journal of  Small Animal Practice, em 2012 (12), concluiu que é fraca a relação entre castração pediátrica (antes dos 3 meses) e a ocorrência de incontinência urinária. Problemas com incontinência urinária parecem não afetar felinos (4).

Quando se examina a literatura científica especializada, fica claro que existem considerações que influenciam a tomada de decisão quanto ao momento da castração, especialmente em cães. Em relação aos felinos, as evidências mostram que a castração é segura em gatos em qualquer idade acima de seis semanas. No cão, o momento da castração é menos definido. No entanto, como a longevidade é aumentada em cães castrados, e como algumas doenças potencialmente fatais (neoplasia mamária, piometra, abscesso prostático, etc.) podem ser evitadas, esses benefícios parecem ter precedência sobre muitas das preocupações de outras doenças que ocorrem com menor frequência.

Levando em conta que a castração é a principal forma de controle da superpopulação de cães e gatos abandonados, que tal procedimento cirúrgico é seguro, que seus benefícios superam seus riscos (mesmo que controversos) e pela obrigatoriedade por lei, nossos filhotes disponíveis para adoção são todos castrados.

Luciano Rodrigo Lopes é biomédico, mestre pela Faculdade de Medicina da USP e doutor pela Universidade Federal de São Paulo. Autor de artigos científicos e capítulos de livros publicados nas áreas biomédica e veterinária, atualmente é professor universitário, pesquisador pela Unifesp e voluntário, desde 2016, do projeto Bichos do Gueto, idealizado pelo Marcelinho Protetor

Referências

1.    Lei 16794/18 | Lei no 16.794, de 12 de julho de 2018 de São Paulo, Governo do Estado de São Paulo. Jusbrasil Available at: https://governo-sp.jusbrasil.com.br/legislacao/600944117/lei-16794-18-sao-paulo-sp. (Accessed: 13th February 2019)

2.    Olson, P. N., Kustritz, M. V. & Johnston, S. D. Early-age neutering of dogs and cats in the United States (a review). J. Reprod. Fertil. Suppl. 57, 223–232 (2001).

3.    Kustritz, M. V. R. Determining the optimal age for gonadectomy of dogs and cats. J. Am. Vet. Med. Assoc. 231, 1665–1675 (2007).

4.    Howe, L. M. Current perspectives on the optimal age to spay/castrate dogs and cats. Vet. Med. Auckl. NZ 6, 171–180 (2015).

5.    Alexander, S. A. & Shane, S. M. Characteristics of animals adopted from an animal control center whose owners complied with a spaying/neutering program. J. Am. Vet. Med. Assoc. 205, 472–476 (1994).

6.    Salman, M. D. et al. Behavioral Reasons for Relinquishment of Dogs and Cats to 12 Shelters. J. Appl. Anim. Welf. Sci. 3, 93–106 (2000).

7.    Oliveira Filho, J. C. et al. Estudo retrospectivo de 1.647 tumores mamários em cães. Pesqui. Veterinária Bras. 30, 177–185 (2010).

8.    Chen, R. F. F., Addeo, P. M. D. & Sasaki, A. Y. PIOMETRA ABERTA EM UMA CADELA DE 10 MESES. Rev. Acadêmica Ciênc. Anim. 5, 317–322 (2007).

9.    Root, M. V., Johnston, S. D., Johnston, G. R. & Olson, P. N. The Effect of Prepuberal and Postpuberal Gonadectomy on Penile Extrusion and Urethral Diameter in the Domestic Cat. Vet. Radiol. Ultrasound 37, 363–366 (1996).

10. Lekcharoensuk, C., Osborne, C. A. & Lulich, J. P. Epidemiologic study of risk factors for lower urinary tract diseases in cats. J. Am. Vet. Med. Assoc. 218, 1429–1435 (2001).

11. de Bleser, B., Brodbelt, D. C., Gregory, N. G. & Martinez, T. A. The association between acquired urinary sphincter mechanism incompetence in bitches and early spaying: A case-control study. Vet. J. 187, 42–47 (2011).

12. Beauvais, W., Cardwell, J. M. & Brodbelt, D. C. The effect of neutering on the risk of urinary incontinence in bitches – a systematic review. J. Small Anim. Pract. 53, 198–204 (2012).
 

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